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A bicicleta e a cidade democrática

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As cidades se revelam em seus espaços públicos, que são o cenário do encontro. Desde muito tempo, um tipo de pensamento que prega o fim dos espaços públicos tem dominado o planejamento urbano, o que já é um contrassenso, afinal, se não existem espaços públicos, não há planejamento urbano.

O maior símbolo deste pensamento são os condomínios fechados, que trazem para dentro dos muros os espaços de convivência, e reduzem a cidade – o lado de fora dos muros – “ao espaço de deslocamento entre a casa e o trabalho”.

Assim, a cidade é apenas rua.

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E é justamente aí, nas ruas, que este pensamento privatista encontra seu último limite. Se fosse possível murá-las, a ideologia dos condomínios não hesitaria em fazê-lo, apagando as últimas expressões de espaço público na cidade.

Entretanto, embora não tenham muros, as ruas hoje estão escandalosamente privatizadas, afinal, não é apenas a forma, mas também o uso e o conteúdo que definem a característica dos espaços públicos.

Os planos viários das cidades traçam linhas por todos os lados, sempre planejadas para a melhor circulação de automóveis. Com sorte, podem ser reservados espaços para o transporte coletivo, mas muito pouco é feito pelas calçadas e espaços cicláveis.

Dessa forma, esse espaço de deslocamento entre a casa e o trabalho está, cada vez mais, condenado a ser o espaço do carro.

Como se tivessem muros nas ruas, as cidades são hostis às pessoas e a toda espécie de circulação suave, como a bicicleta. Monopólio dos automóveis, o sistema viário também está privatizado, revelando que este último limite já foi banalizado.

Este monopólio imoral do espaço público é, também, expressão dos limites da democracia na cidade. Afinal, uma cidade democrática deve assegurar o uso plural de seus espaços públicos, e não entregá-los a um cartel.

Abrir espaços para as bicicletas é construir uma cidade de baixa intensidade, com espaços públicos de verdade, na forma e no uso e conteúdo, expressão de uma cidade democrática.

Todo e qualquer texto publicado nesta coluna é de exclusiva e integral responsabilidade do seu respectivo autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Cicloiguaçu.

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