Nos acostumamos na últimas décadas a discutir temas básicos como educação, saúde, segurança, emprego e habitação. São os temas preferidos dos políticos em busca de votos pois são necessidades básicas do ser humano.
Agora estamos descobrindo que um novo tema deve entrar nesta lista: a mobilidade urbana.
A vida na cidade transformou o ser humano e incorporou novas demandas que nossos pais e avós não davam muita importância: a capacidade de deslocar-se pela cidade de forma rápida e confortável. Se antes havia menos pessoas, poucos automóveis e muito espaço público, agora a situação inverteu-se. Há cada vez mais disputa de espaço entre pessoas e carros, resultando em mais de 50.000 mortes por ano no trânsito no Brasil.
O aumento da qualidade de vida e do poder aquisitivo da população melhora todas as necessidade básicas acima mencionadas. Só uma piora: a mobilidade urbana, pois aumenta-se o número de automóveis, obstruindo as vias públicas, gerando estresse, problemas de saúde, além de promover a desigualdade social e indiretamente o aumento da violência nos grandes centros urbanos.
Por décadas o governo brasileiro neglicenciou seu dever de assegurar transporte público de qualidade, delegando a tarefa ao próprio cidadão, oferecendo equivocados incentivos à indústria automobilistica como a redução do IPI ou subsídio à gasolina. Investimentos públicos milionários em novas avenidas, túneis e viadutos tem sido a resposta do governo ao problema da mobilidade urbana. Além de representar má utilização do dinheiro público e uma porta aberta à corrupção, tais obras contribuem para que o número de mortos e feridos aumentem ainda mais, na medida que promove o aumento da velocidade momentânea de deslocamento, comprovadamente o maior motivo dos acidentes. A velocidade média porém, diminui cada vez mais, devido aos engarrafamentos, pois o espaço das vias públicas não aumenta. Nas cidades não há mais áreas para se construir ruas e avenidas. A lógica propagada pelas montadoras de automóveis de comprar um carro para deslocar-se não funciona mais. Na cidade de São Paulo a atual velocidade média de deslocamento em automóveis é de 9 km/h, menor que a velocidade das carroças dos antigos bandeirantes que colonizaram o interior do país há 400 anos atrás e mais lento que a velocidade de uma galinha.
Mudar a opinião do enfurecido motorista que encontra um ciclista na “sua” rua não é fácil. Por décadas ele foi enganado pelo lobby das montadoras, empresas petrolíferas, pelos grande grupos midiáticos e pelo próprio governo, que doutrinam-no para comprar um carro e sentir-se o rei do asfalto. Felizmente uma nova classe de políticos conscientes está lentamente modificando este cenário. Prefeitos como Fernando Haddad na cidade de São Paulo e Gustavo Fruet em Curitiba tiveram a sensibilidade de agregar em suas equipes especialistas em mobilidade urbana que estão aplicando doses homeopáticas de injeções de gestão eficiente, causando uma reação imunológica que combate esta “carrocracia” egoísta e assassina profundamente arraigada em nossas cidades. O efeito colateral desta “medicação” são as manifestações de pseudo-cidadãos contra ciclovias e a favor de vagas de estacionamento em via pública, porém não há como vencer o óbvio: o direito coletivo sempre prevalece sobre o individual. Este é um dos pilares da sociedade que nos diferencia dos animais: o bem comum é mais importante que o direito individual. O comerciante que “privatiza” aquela vaga utilizado pelo seu cliente estacionar o automóvel terá que liberá-la, pela conscientização ou pela força do estado, para que todo o resto da população possa circular por lá.
Diante deste quadro, qualquer pessoa inteligente deduz que precisamos mudar o paradigma da mobilidade urbana, investindo pesado em transporte público eficiente e de qualidade, além de estimular meios de transporte alternativos como a bicicleta, que deve ocupar cada vez mais a área urbana. Dar espaço a bicicleta significa promover a qualidade de vida, reduzir os acidentes e humanizar a cidade priorizando aquilo que realmente importa: a sua felicidade. Em contraponto a lógica dominante atual que prioriza o PIB (Produto Interno Bruto), devemos buscar a FIB (Felicidade Interna Bruta).
Algumas dicas para aumentar sua FIB:
1. More próximo de seu trabalho ou estudo.
2. Diminua a sua dependência do carro.
3. Durma mais cedo, acorde mais cedo e vá de ônibus, bicicleta ou mesmo a pé.
4. Baixe apps com os horários de ônibus próximos a sua casa.
5. Frequente os pequenos comércios próximos a sua casa.
6. Compre mais produtos naturais e com pouca embalagem.
7. Conviva mais com seus filhos e parentes queridos.
8. Leia mais livros e assista menos TV.
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