No dia 16 de Abril foi realizado o webinar – um seminário virtual – de lançamento do hackathon #HackPeloFuturo, promovido pelo Estado do Paraná. Hackathon é uma maratona em que pessoas se reúnem para encontrar soluções a temas diversos. Os temas deste evento são saúde, economia, sociedade e cultura para criar o futuro pós-COVID-19.
Eventos como este, além de serem limitados aos interesses de seus propositores, são focados no desenvolvimento de aplicativos digitais e outras soluções ditas tecnológicas. Tecnologia, hacker, o que é isto? É importante esclarecer que tecnologia não é apenas o que a gente vê numa tela, mas é a própria cidade, o corpo da cidade, a rua, a forma que nos deslocamos.
Das pessoas convidadas para falar nesse webinar, o Governador do Paraná, Ratinho Junior, questionou por que a população precisa ficar em um transporte público lotado e também demonstrou bastante preocupação com gastos do Estado. Outra convidada, Ana Maia, fundadora de Panic Lobster, falou e repetiu sobre a importância do desenvolvimento de soluções para melhorar nossa saúde mental. Assim como, de nos reinventarmos, dentre outras coisas, sobre como fazemos compras pela internet e sobre como recebemos os produtos em casa.
Uma incrível solução: pedalar! Usando máscara, é claro.
Cidades no mundo todo, em todos os continentes, estão reinventando sua forma de se deslocar. Para que as pessoas evitem o transporte público durante a pandemia, estão construindo ciclofaixas, abrindo ruas inteiras apenas para o tráfego não motorizado, tornando gratuito seus sistemas de bicicletas compartilhadas. Tudo isso para evitar aglomerações no transporte coletivo, oferecer mais espaço para as pessoas utilizarem a bicicleta com segurança e restaurar a qualidade do ar, ao reduzir a poluição proveniente do tráfego motorizado, agravante à doença. Outra medida é tornar automática a fase para pedestres em todos os semáforo, para que as pessoas não precisem pressionar um botão.

O que essas cidades estão fazendo é hackear suas vias de tráfego, antes ocupadas por carros e agora esvaziadas. Dessa forma, oferecem mais espaço seguro para os meios ativos de transporte. Em Berlim, por exemplo, foi elaborado um manual de Regulamentação para instalação e ampliação de instalações provisórias para o tráfego de bicicletas. Destacam-se também outras cidades que construíram infraestruturas temporárias: Los Angeles, El Paso, Atlanta e Nova Orleans, nos EUA; Bogotá, Colômbia; Budapeste, Hungria; dentre outras cidades nestes e em outros países.

O transporte por bicicleta é vantajoso economicamente para o Estado. Pois, cada quilômetro percorrido por um carro representa gastos aos cofres públicos. Na Dinamarca, por exemplo, mesmo com imposto de 180% sobre o carro, 1 km percorrido por um automóvel custa € 0,16 ao Estado dinamarquês enquanto que 1 km percorrido por bicicleta faz o Estado economizar € 0,23 (Copenhagenize, 2012).
Isso pode ser relacionado à diversas razões como, pedalar melhora a saúde mental e fortalece a imunidade, o que significa economia em saúde. Maior parte da poluição é proveniente do tráfego motorizado. A poluição é responsável por muitas doenças respiratórias, onerosas para o sistema de saúde, aumentando ainda mais os riscos relacionados diretamente e indiretamente à COVID-19, Síndrome Respiratória Aguda Grave causada pelo coronavírus 2 (SARS-CoV-2).
O transporte por bicicleta também não polui o ar. Além disso, reduz outros impactos negativos do tráfego, relacionados ao risco de “acidentes”. O trânsito no Brasil, até então, é mais letal que a pandemia de COVID-19. Dos leitos de UTIs do SUS, 60% são ocupado por vítimas do trânsito, sendo que estes poderiam estar disponíveis às pessoas contaminadas pelo vírus.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera as mortes no tráfego uma epidemia global. O Brasil possui um dos piores índices no ranking de vítimas fatais do tráfego. No país, ao considerar dados de 2018, são em média 112 mortes por dia, no trânsito, versus 64 mortes por COVID-19, um dado igualmente assustador. Considerando, ainda, que este número tem aumentado exponencialmente, mesmo com as medidas de isolamento social. Dados atualizados, em 4 de maio de 2020: desde 19 de março, as mortes por COVID-19 passaram da média de 159 mortes por dia!
Devido a necessidade deste isolamento, a Internet torna-se um importante modal de transporte, podendo suprir muitos serviços e evitar deslocamentos físicos. Porém, não se pode exigir que todas as pessoas tenham meios de acessar a Internet. Tampouco pode a Internet substituir todas as nossas necessidades de deslocamento de nossos corpos e de produtos que consumimos. A tendência é que produtos sejam entregues em casa. A bicicleta, nesse caso, também possui um importante papel na logística urbana. Com certeza, a maioria das pessoas já cruzou com algum entregador de bicicleta.

Como garantir a segurança no deslocamento das pessoas que realizam serviços de entrega por bicicleta? Como garantir meios de transporte seguros para quem não pode usar um veículo motorizado? Como estimular as pessoas a evitar aglomeração no transporte coletivo?
Com mais infraestrutura cicloviária!
As infraestruturas cicloviárias que surgem em todo o mundo são ditas provisórias ou temporárias, também conhecidas por interim design strategies ou pop-up. Elas possuem materiais de qualidade temporária que podem ser facilmente aplicados. Por exemplo, de repente, uma ciclovia aparece, mas, não se sabe ao certo por quanto tempo deve durar e nada impede que se torne permanente. Sem contar que nada em uma cidade é realmente permanente, desde o seu surgimento está em constante construção, desconstrução, reconstrução…

A ideia de um “futuro pós-COVID-19” é abstrata e incerta. Pesquisadores da Universidade de Harvard dizem que períodos de isolamento devem continuar até 2022, podendo se estender até 2024, devido a sazonalidade do vírus (revista Science, 2020). Ou seja, não é um período, uma fase que conhecemos, no entanto, representa uma mudança de vários aspectos em nossas vidas, inclusive, a maneira de transitarmos.
A bicicleta, portanto, é a solução para antes, durante e depois da pandemia de COVID-19, Síndrome Respiratória Aguda Grave causada pelo coronavírus 2 (SARS-CoV-2) e para a pandemia da violência no trânsito.


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