
Entre nós, seres humanos, há uma causa comum em todo o mundo que nos fere e mata de maneira que não haja grupo de risco, pois a todas as pessoas aflige, desde os anos 50. Trata-se da má condução de motoristas e a conivência da indústria automobilística.
Atenção leitores, nós autores deste texto precisamos esclarescer logo no começo que mortes no trânsito não são “acidentes”. São combinações de má condução seja por incapacidade, erro ou distração além da ausência de tecnologia aplicada nos veículos e na infra-estrturua urbana. Tendo ainda os acidentes, que são imprevisíveis e sem prevenção, porém, mais raros.
Nesses termos, o trânsito é como uma arena de nossas relações e pactos sociais, somos uma coletividade que interaje e se desloca e obviamente, interessa nos mantermos vivos e esse é o primeiro pacto. De modo que, quando este pacto é rompido ou prejudicado com morte, deve-se pezar e identificar o que gerou conflito para nos superarmos. E assim, o problema não se repete, pois avançamos socialmente e marcamos ou registramos algo, mesmo que simbolicamente, pra não incorrer no erro.
Foi por isso que dia 19 de agosto foi instituído como o dia brasileiro do ciclista. Com a perda de uma pessoa, Pedro Deivison, que estava pedalando em Brasília (2006), seus pais criaram a ong Rodas da Paz e uma lei foi sancionada (em 2017) para a reflexão sobre violência no trânsito. E para, em sociedade, superar e daí sim, celebrarmos.
No Paraná, ainda hoje, dia 19 de agosto de 2020, o noticiário da manhã tem a imagem de uma roda de bicicleta solta no asfalto iluminado pelas luzes das ambulâncias ao fundo. A legenda do telejornal tem escrito “Ciclista morre na BR-116″ – atropelado por um caminhão em Colombo”. A cada (02) dois dias, ao menos (01) uma pessoa que pedala, morre no trânsito brasileiro. Mesmo sem sabermos dos prejudicados ou feridos, mesmo em período de distanciamento físico e ainda com menos colisões (- 40%)* que em relação a 2019, há ainda mais ciclistas nas ruas.**
As adequações do comércio e de produtores no período pandêmico têm favorecido a presença de mais ciclistas nas ruas, que trabalham em logística de “última milha”, cujo trecho do setor é tradicionalmente mais complexo porém ideal para ser feito de bicicleta, atendendo produtores e empresas (B2B) e/ou comércio e clientes (B2C).
Em SP, na mais recente pesquisa do setor (2018), cerca de metade deles são ciclistas novos, com bicicletas de aluguel, compartilhadas ou compradas para trabalhar – lembrando que este pode ser um dos impactos de políticas públicas numa capital de 473 km de ciclovias.
Em Curitiba, a Cicloiguaçu – Associacão dos Ciclistas do Alto Iguaçu, em parceria com a Bicicletaria Cultural, quer propor uma pesquisa exploratória que envolva dados sóciodemografico sobre os ciclo entregadores, sua mobilidade, trabalho e renda, bem estar e opiniões a fim de entender essa crescente categoria de trabalhadores nos controversos 214km de ciclovias, visto que usuários e especialistas não concordam com a forma de contagem.
Por sua vez, a Bicicletaria Cultural, empreendimento social (desde 19 de agosto de 2011) revela que é visível o crescimento destes trabalhadores e por isso criou o projeto Entrega Amiga no começo da pandemia. A proposta busca sustentabilidade e parcerias para oferecer apoio, abrigo, higiene, energia, internet, distribuir EPIs, refeitório e almoços gratuitos em marmitas para ciclo entregadores.
Como sociedade, estamos em construção e compreendendo que distanciamento físico também permite ter coesão social.
Continuemos confiando nos uns aos outros, não há mesmo jeito de vivermos sós, temos como condição humana, a interdependência e atuação em rede, compreendendo uma Visão Zero, onde é inaceitável perder nem mesmo (01) uma pessoa no trânsito e entre nós.
E por fim, ao refletir e identificar com objetividade, a causa dos danos e das colisões, é bom começar por não chamá-los irresponsavelmente por “acidentes”. Façamos o trabalho de analisar e registrar aquilo que devemos superar como sociedade e daí, celebraremos.
* Evitemos pois tratar esses ocorridos como “acidentes” para que uma co responsabilidade seja resgatada.
** São combinações de má condução seja por incapacidade, erro ou distração além da ausência de tecnologia aplicada nos veículos e em infraestrutura urbana.

Deixe um comentário