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Três reflexões e um item da infraestrutura cicloviária

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A Marcha de Domingo, 11/01/2015 − “Je Suis Charlie“, menos do que um protesto, representou mais a renovação do ideal Ocidental cunhado pela Revolução Francesa há 226 anos − Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Estes princípios, para o bem da Humanidade, vão além das religiões, estão acima de seus dogmas ou conceitos, pregados por deuses e seus seguidores. E isto nada tem de oposição, de desrespeito a qualquer credo pregado ou seguido pelas religiões. Trata-se, em verdade, de postulados em favor da vida em sociedade e das conquistas que toda a civilização vem obtendo nas inter relações sociais, com liberdade, com tolerância e aceitação de posições contrárias as minhas e as suas. A busca da Igualdade, em um mundo onde prepondera o capital em muitas das relações sociais, tem sido objetivo difícil de ser alcançado. No entanto, a Liberdade e a Fraternidade são princípios passíveis de serem alcançados por todos, dado representarem muito mais condutas dependentes de posicionamento individual do que arraigadas a posições coletivas. Para tanto, basta que tenhamos governos pouco interventores em assuntos não essenciais à sobrevivência humana, e uma população que pratique social, individual e coletivamente a tolerância entre contrários. Por tudo isto, mesmo não concordando com picardias aos dogmas religiosos de muitas comunidades e povos, “Je Suis Charlie“.

Um dia antes, no sábado, 10/01/2015, reuniram-se no Estádio de Futebol do Atlético Paranaense, em Curitiba, mais de 40 mil pessoas, vindas de todas partes do Brasil para celebrar, junto com os párocos locais, uma missa com objetivo específico: pedir a beatificação da Dra. Zilda Arns. Tive um breve encontro com a Dra. Zilda no aeroporto de Brasília, meses antes da sua morte. Ocasião em que descidos do mesmo voo de Curitiba para a capital, surpreendentemente nos encontramos junto ao local de retirada de malas. Nós, os únicos presentes para retirada dos pertences junto à esteira daquele aeroporto. Naquela oportunidade, vencendo qualquer inibição, cumprimentei-a e pude dizer da minha admiração por seu trabalho. Mais do que isto perguntei coisas de somenos importância, ao que ela muito sorridente e afável, foi respondendo minhas breves perguntas. Foram cerca de cinco minutos de contato, mas de uma delicadeza sem par. No entanto, devo dizer que considero um exagero do povo brasileiro buscar a beatificação da Dra. Zilda. Não porque tenha algo a desaboná-la, mas porque nada de mais havia naquela pessoa, além da extrema bondade. Entendo que numa nação que perdeu o senso de disciplina, de credulidade nas autoridades públicas e onde a maioria do povo está de fato doente quanto à prática de valores supremos como moralidade, integridade, honestidade e outros, quando encontramos uma pessoa que pratica isto de forma tão intensa, logo queremos guindá-la à condição de santa. Não. Não se trata disto. Dra. Zilda foi pessoa boníssima, íntegra, carismática, prestativa, despretensiosa, dedicada, que apenas cumpriu uma missão humana admirável quando esteve entre nós. Acredito que esta tentativa da sua beatificação representa muito mais a busca de alguém que represente valores que há muito já perdemos e queremos recuperá-los através dela.

Neste mesmo sábado,10/01/2015, tive oportunidade de ir a Morretes, com os netos, num trem da Serra Verde Express. No nosso vagão fomos acompanhados pelo guia poliglota Theodoro, com mais de sessenta anos, que foi animando a viagem com fatos históricos sobre a construção da estrada de ferro e sobre alguns outros fatos pitorescos sobre a ferrovia. No nosso vagão estavam presentes alguns estrangeiros, todos europeus. Quase ao final da viagem, perguntei em voz baixa ao Sr. Theodoro, se ele não sentia vergonha como eu perante os estrangeiros. Isto, por estar anunciando muitas propriedades lindeiras à ferrovia como prédios em ruínas, com o que ele me disse que isto era um problema federal, da RFFSA. Cá comigo penso que esta deveria ser obrigação da América Latina Logística − ALL e da Serra Verde Express, que exploram conjuntamente o trecho entre Curitiba e Morretes. E mais, são muitas as propriedades abandonadas, em semi ruínas, com valor histórico relevante. E se esses fatos são importantes de serem citados pelos guias nos trens, por que não recuperar esta história em conjunto com o Governo do Estado do Paraná? Afinal, esta é uma parte do patrimônio imaterial do Estado que poderia ser transformada em patrimônio também material, a partir da restauração dessas construções, valendo até mesmo alguma parada de trens permitindo visitas dos turistas em passeio até o Município de Morretes. Tudo isto sem falar nos trens e seus vagões, que carecem de maiores cuidados na limpeza, na recuperação, e mesmo em sua renovação, pois destoam muito de outros trens que recebem turistas em outras partes do mundo, em especial na Europa.

Quanto à infraestrutura cicloviária, dia 5/01/2015 teve início obra de recuperação da “ciclovia” que une a Av. Cândido de Abreu ao Parque São Lourenço. O trecho se situa entre esse parque e a Rua Brasilino Moura. A licitação foi conduzida pela Associação Nacional de Transportes Públicos − ANTP, e tem cerca de 1,8 km de extensão.

A obra faz parte do STAQ − Sustainable Transport Air Quality Project, subprograma do Global Environment Facility do Banco Mundial. Na obra alguns trechos cicloviários serão separados dos passeios compartilhados e outros trechos com esta condição terão a largura do passeio ampliada de 2,0 m para 2,50 m. Parece pouco, mas representa um ganho efetivo na segurança de pedestres e ciclistas. Oxalá a ANTP consiga convencer o Banco Mundial a liberar recursos para a manutenção do outro trecho, entre a Rua Brasilino de Moura e a Av. Cândido de Abreu, com pouco mais de 2,0 km.

Importante observar que a manutenção da infraestrutura é condição básica à manutenção dos ciclistas já conquistados para este modal em nossa sociedade. No caso de infraestruturas que atendem parques, representam ao menos, entre os ciclistas eventuais que fazem uso de automóvel no seu dia a dia, o ganho de pessoas tolerantes para com a causa da bicicleta.

No início deste novo milênio, em visita ao Rio de Janeiro, pude observar os problemas enfrentados pela ciclovia da orla de Copacabana, após uma madrugada de ressaca no mar. As ondas conseguiram levar areia à ciclovia da beira mar, gerando grandes problemas à circulação dos ciclistas, como mostram as fotos a seguir. No entanto, a Prefeitura do Município do Rio, ainda na manhã em que estive observando aquela ciclovia, começou os serviços de recuperação da infraestrutura, retirando a areia, devolvendo a pista à circulação dos ciclistas, em especial aos entregadores de coco, espalhados com choupanas em toda a orla, aquela que é tida como a ciclovia mais charmosa e famosa da cidade.

Todo e qualquer texto publicado nesta coluna é de exclusiva e integral responsabilidade do seu respectivo autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Cicloiguaçu.

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